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NOTÍCIAS

28-07-2010
Artigo - A força inédita do emprego

25-7-2010 – Diap / Revista IstoÉ Dinheiro

Por Denize Bacoccina e Hugo Cilo, na revista IstoÉ Dinheiro

Pleno emprego. Duas palavras mágicas que, durante muito tempo, simbolizaram o Santo Graal da economia. E esse objetivo, que sempre pareceu distante no Brasil, já começa a ser alcançado. Nos últimos seis meses, com a criação de 1,5 milhão de vagas com carteira assinada, a taxa de desemprego no País terá caído para cerca de 7%.
Será a mais baixa desde o início da série histórica do IBGE, que começou a ser feita na metodologia atual em 2002. Uma queda considerável para um índice que chegou a 13,1% em 2004 e que revela dados ainda mais positivos. Entre os homens, o desemprego já caiu bem abaixo disso.
O número inédito, de 5,6%, aproxima o Brasil dos Estados Unidos dos bons tempos. Hoje, a taxa de desocupação na economia americana está em 9,7%. E, enquanto aqui são criadas mais de 300 mil vagas por mês, lá elas são cortadas quase na mesma proporção.
Já estamos, sim, nos aproximando de uma situação de pleno emprego e, no Brasil de hoje, qualquer pessoa que esteja disposta a trabalhar encontra uma ocupação, disse à DINHEIRO o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Isso não aconteceu nem nos tempos do milagre econômico.
A taxa de desocupação que indica o pleno emprego nem sempre é a mesma. Em países onde o mercado de trabalho é mais flexível, como os EUA, ela se situa ao redor de 4%. Em mercados mais regulados e com amplos benefícios assistenciais, como o Brasil, ela é um pouco mais alta. Aqui, há ainda um fator adicional, que é o contingente de 1,5 milhão de trabalhadores, com pouca ou nenhuma escolaridade, que compõem o chamado desemprego estrutural.
“No ano passado, um milhão de pessoas procuraram emprego e não encontraram por falta de qualificação”, disse à DINHEIRO o ministro do Trabalho, Carlos Lupi. É por isso que uma taxa de desocupação de 7% no Brasil pode indicar uma situação próxima ao pleno emprego.
O que é bom em função do aumento da renda e do consumo, mas também acende uma luz amarela na política monetária em razão de eventuais riscos inflacionários. E o fato é que, pela primeira vez, essa situação rara do mercado de trabalho brasileiro será analisada pelo BC, na reunião do Comitê de Política Monetária, que ocorre nos dias 20 e 21.
Para as empresas, evidentemente, o pleno emprego é uma grande notícia. Mais gente empregada significa mais renda. Mais renda, mais consumo. Mais consumo, maior produção e maiores vendas, movimentando a roda da economia. “Serão 2,5 milhões de empregos até o fim do ano”, diz Lupi.
Com isso, não apenas os jovens que entram no mercado estão sendo absorvidos, como uma parcela dos desempregados consegue se recolocar. Em abril, 59% do total dos trabalhadores tinham carteira assinada. O crescimento entre 6,5% e 7% previsto para este ano deve impulsionar novas contratações.

Nada mais relevante para o emprego do que o crescimento, diz o diretor-adjunto de Estudos de Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Renaut Michel.
Muitos empresários estão convivendo pela primeira vez com um mercado de trabalho tão aquecido que bons profissionais são cada vez mais escassos, mais caros e mais disputados. Isso está acontecendo, por exemplo, na construção civil, setor que liderou a abertura de postos de trabalho com 230 mil vagas e aumento de 15% em 12 meses.
“Para algumas funções mais específicas, praticamente não há mais profissionais”, disse à DINHEIRO Álvaro Simões, presidente da Inpar, uma das maiores incorporadoras do País. Há categorias tão demandadas que conseguiram aumento real de 80%. Rubens Menin, dono da MRV, a maior construtora popular do País, vive uma situação semelhante.
“Estamos contratando quem estiver disposto a trabalhar e tirando funcionários de outras praças, como o comércio, os supermercados e as feiras de rua”, disse ele à DINHEIRO. No seu caso, o grande desafio está sendo formar profissionais à medida que o mercado se amplia.
As diferenças na qualificação profissional ajudam também a explicar as disparidades na taxa de desemprego enquanto Porto Alegre tem o nível mais baixo (5%), Salvador é a única capital com dois dígitos (12%).
Mas os dados do emprego também revelam grandes surpresas nas regiões onde, apesar das deficiências na formação do capital humano, grandes obras de infraestrutura começam a mudar a realidade local. O campeão do emprego no País é Rondônia, onde estão sendo construídas no Rio Madeira as usinas de Jirau e Santo Antonio, empreendimentos orçados em R$ 22 bilhões.
O emprego na construção civil no Estado aumentou 75,3% nos últimos 12 meses com a criação de 16,9 mil vagas. Na hidrelétrica de Santo Antônio, dos 20 mil trabalhadores envolvidos diretamente na obra, 86% são mão de obra local, dos quais 14% são mulheres. Nunca se fez uma hidrelétrica com esse nível de exigência. Nosso desafio é transformar Santo Antônio num modelo, disse à Dinheiro o presidente da Madeira Energia, Roberto Simões.
O aquecimento do mercado de trabalho também levou ao aumento dos salários. Levantamento do Dieese mostra que no ano passado 97% das categorias profissionais tiveram ganho acima da inflação. “Os índices variaram entre 1% e 5%, mas ainda foram menores do que a produtividade das empresas”, diz o presidente da Central Única dos Trabalhadores, Artur Henrique, que aponta uma evolução nas relações trabalhistas dos anos 90 para cá.
“Naquela época tínhamos uma atuação de resistência contra a tentativa de retirada de direitos. Hoje temos uma agenda positiva, na qual discutimos não apenas reposição de perdas, mas aumento real”, afirma.
No segundo semestre, categorias organizadas e importantes como metalúrgicos, bancários, químicos, eletricitários e petroleiros têm negociação salarial, e a expectativa do sindicalista é de que o bom momento da economia ajude a conseguir bons acordos que, por sua vez, influenciem os demais trabalhadores.
Pessoas empregadas têm renda, podem consumir, e isso ajuda a movimentar a roda da economia, diz o presidente da CUT. Além das negociações, contribuiu para a elevação da renda o aumento real do salário-mínimo. Desde 2003, o ganho acima da inflação é de 74%. Na média, as categorias que têm acordo coletivo tiveram elevação de 26%.
Um estudo do Ipea, divulgado na semana passada, diz que 12,8 milhões de pessoas saíram da pobreza absoluta entre 1995 e 2008, reduzindo a taxa de 43,4% para 28,8%. A pobreza extrema caiu pela metade nesse período, de 20,9% em 1995 para 10,5% em 2008.
É esse aumento da massa salarial que levou empresas a rever a sua estratégia de vendas e direcionar seus investimentos para o segmento formado pelo novo contingente de trabalhadores, que vêm das classes C e D. A estratégia, já adotada pela indústria, de criar produtos mais voltados ao consumidor popular, agora chegou ao varejo.
Pão de Açúcar, Carrefour e Walmart, as três maiores redes de supermercados do País vão destinar às classes C e D um terço dos R$ 6,3 bilhões em investimentos previstos para este ano e o próximo.

São novas lojas e reforma das atuais para aumentar o mix de produtos e oferecer novas opções a esse consumidor que teve aumento de renda. A venda nos supermercados vem crescendo a um ritmo de 10% sobre o ano passado.
Até agora, o crescimento do emprego tem sido generalizado, mas alguns setores da economia crescem mais do que outros. O campeão de contratações em 2010 é o setor de serviços, com 490 mil novas vagas. Nesse segmento, a Atento triplicou o número de funcionários desde 2000, passando de 41 mil para 135 mil. Hoje é um dos principais empregadores do País.
A indústria abriu 394 mil novos postos entre janeiro e junho deste ano. No entanto, nem todas as perdas da crise de 2008 e início de 2009 foram repostas. O caso mais emblemático foi o da Embraer, que cortou quatro mil postos de trabalho na crise.
A empresa voltou a contratar, mas não no mesmo volume de antes. E ainda assim tem tido dificuldades para repor seus profissionais. “O Brasil hoje está formando menos engenheiros do que o México, o que torna difícil a contratação”, disse à Dinheiro o presidente da empresa, Frederico Curado. Mas enfrentar um problema como o da qualificação já é algo bem mais saudável do que ter que combater o desemprego agudo, como ocorria no Brasil num passado recente.
Enquanto o índice de desemprego cai a um ritmo acelerado no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa o mercado de trabalho ainda não se recuperou da crise de 2008 e 2009. Na média, os países da OCDE, grupo que reúne as economias mais desenvolvidas, tiveram em maio uma taxa de 8,6%.
O pior índice é o da Espanha, de 19,9%. Depois de décadas acompanhando a discussão dos americanos sobre ganhos de produtividade e pressão inflacionária do mercado de trabalho, o Brasil finalmente pode fazer a discussão por aqui enquanto acompanha a crise no Hemisfério Norte.

Entenda o plano emprego
O conceito indica a menor taxa de desocupação possível numa economia. Não é o desemprego zero, porque sempre haverá rotatividade no mercado, com trabalhadores buscando melhores salários e empregadores à caça de profissionais mais capacitados

Leon Walras
O primeiro economista a formular uma teoria de equilíbrio foi o matemático francês Leon Walras (1834-1910). De acordo com seu modelo, no pleno emprego, todos os trabalhadores dispostos a aceitar o salário de equilíbrio estarão empregados.

John Maynard Keynes
O inglês John Maynard Keynes (1883-1946) desafiou a teoria ao dizer que a situação de equilíbrio macroeconômico não garante o pleno emprego, cabendo ao Estado estimular a demanda com políticas fiscais anticíclicas.

Milton Friedman
O grande opositor de Keynes no debate econômico foi Milton Friedman (1912-2006), para quem a estabilidade monetária era mais importante do que a geração plena de empregos.

Edmund Phelps
No meio do caminho entre Keynes e Friedman, surgiu a teoria de Edmund Phelps, vencedor do Nobel em 2006, que desenvolveu um conceito chamado Nairu (Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment). É a taxa de desemprego mínima que não acelera a inflação. E que o Brasil pode atingir.



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